O fim da web, publicidade e previsões

em fev 23, 2015:por

Globo

Semanas atrás, início do ano, o mundo foi impactado por uma afirmação inquietante: a web vai desaparecer.

Seu autor, Eric Schmidt, Executive Chairman do Google, disse exatamente isso no fórum mundial de Davos, na Suiça.

Textualmente, para quem perdeu, ele declarou: “A internet vai desaparecer. Vão existir tantos endereços de IP, tantos aparelhos, sensores, coisas que estaremos usando (no corpo), coisas com as quais estaremos (vitualmente) interagindo, que nós simplesmente não a sentiremos (no sentido de percebê-la). Ela (a internet) fará parte da nossa presença (no mundo) o tempo todo”.

Esclarecendo para os desavisados de plantão que correram para a Paulista para comemorar: ela vai ficar “invisível” a nossa percepção. Como a eletricidade. Ela estará lá, funcionando, mas nem a notaremos. Não foi o que ele disse, mas o que ele quis dizer.

Previsões bombásticas sobre o fim das coisas explodem periodicamente com grande impacto aqui e ali, mas nem sempre com a consistência desejável. Ou a clareza devida.

Para ajudar o leitor a não perder tempo imaginando como será o mundo sem a internet, vamos a alguns desaparecimentos básicos, outros inexistentes, outros ainda definitivos e verdadeiramente preocupantes sobre a morte das coisas que amamos tanto.

Morreu? Antes elas do que eu!

Para começar com bom humor, vale dar uma espiada no Facebook do Martin Sorrell sobre o tema.

Ele desanca a imprensa mundial por gostar de um sensacionalismo fácil (no que, em muitos casos, tem absoluta razão) e ficar matando indevidamente tudo o que vê pela frente, como moscas. Ele lista um conjunto hilário de manchetes que assassinaram a sangue frio uma série de negócios nos últimos anos, lembrando que, se apenas a menor parte delas fossem minimamente verdadeiras, o WPP já teria ido para o buraco faz tempo.

Ele mesmo, a bem da verdade, matou a propaganda no MIXX de dois anos atrás, eu vi, eu estava lá. Mas explico mais adiante.

Voltemos ao pistoleiro Eric Schimdt, que escolheu um país tão pacato como a Suíça para matar a internet.

A internet é hoje, já, tão invisível para nós que na verdade nem a vemos funcionando. Ocorre que muita gente confunde internet com web e, na verdade e tecnicamente falando, uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Tivemos já oportunidade de falar sobre esse assunto algumas vezes emProXXIma, mas é sempre bom reiterar a lembrança.

Cultura geral, gente! Aulinha rápida.

O que é internet?
É uma rede planetária de redes, um sistema integrado de infra-estrutura (que não vemos nunca, nem nunca vimos, desculpe Eric) que conecta milhões de computadores mundialmente, utilizando para isso uma suíte padrão de protocolos chamada de TCP/IP .

Cada computador tem uma identidade única nessa rede, como um RG, é o tal do IP. Eles se falam entre si e, ao mesmo tempo, interagem com toda a rede. Os dados que percorrem a internet utilizam uma série variada de linguagens, outros protocolos, num emaranhado complexo de tecnologias e de redes eletrônicas, sem fio e óticas. Para simplificar muito, internet, fundamentalmente, são sinais e cabos. Internet não é web.

O que é web?
Nós a conhecemos também como World Wide Web (www). Ela é um desses protocolos que trafegam pela internet, o HTTP, que acomodado sobre sua infra-estrutura, permite a troca de informações que nos é tão familiar hoje em dia. A web é, assim, apenas mais uma das linguagens que percorrem a internet. O email, por exemplo, é outra. Nossos e-mails estão na internet, mas não na web. Um aplicativo (app) também usa a internet, mas igualmente não está na web. Nem uma ligação no Skype. Para navegar na web, usamos navegadores, web browsers. Através deles, acessamos documentos digitais que chamamos de web pages, que se ligam uns aos outros por hyperlinks. Essa arquitetura permite que acessemos e compartilhemos textos, gráficos, imagens, sons e vídeos. Isso é a web (legal, né… agradeça ao Tim-Berners Lee por essa maravilha.)

A internet não acabou. Ainda não que saiba, ao menos. Mas foi a ela, essa coisa invisível, que o Eric Schmidt se referiu em Davos.

Para enterrar com pá de cal o tema, aqui vai uma isenta e científica análise do Pew Institute sobre a internet e a web, quando a www completou 25 anos: “A Web se tornou uma grande camada da internet. Na verdade, para muitos, tornou-se sinônimo da Internet, apesar de que, tecnicamente, esse não seja o caso. A informação compartilhada na Internet será tão facilmente entrelaçadas na vida cotidiana que se tornará invisível, fluindo como eletricidade.”

Agora, quem de fato matou a web foi o Chris Anderson.

The web is dead
Chris Anderson é o eterno publisher da Wired (ele não está mais lá, que saudades…) e um visionário do mundo digital.

Num artigo histórico de sua revista, em 2010, Anderson mandou lá, na manchete de capa: “The web is dead”.

Lembra?

Os afoitos correram para a Paulista naquela época também.

Mas nada como recorrer à declaração original, nas palavras do seu próprio autor, para entender o que de fato ele estava dizendo. O texto começa assim: “Você acorda e checa os e-mails habilitando um app no seu iPad. No café da manhã, navega no Facebook e no Twitter. Lê o The New York Times. Mais três apps. No caminho para o escritório, você ouve um podcast em seu smartphone. Outro aplicativo. No trabalho, acessa um serviço de notícias através de um feeds de RSS. Mantém também conversas no Skype e troca mensagens instantâneas. Mais aplicações e aplicações. No final do dia, você chega em casa, faz um jantar enquanto ouve Pandora, joga alguns jogos no Xbox Live e assiste a um filme via streaming no Netflix. Você passou o dia na internet, mas não na Web”.

Viu? Não falei?

O ponto do nosso amigo Anderson ao dizer que a web está morta é que os aplicativos estão tomando o seu lugar e hoje é perfeitamente possível você viver sua vida navegando na internet, sem nem tocar na web. Assim, the web is dead. Sacou?

Agora, que o mundo está sendo engolido pelo sotware, ah… isso está. Chris Anderson estava, em 2010, exatamente alertando para isso, só que em outras palavras. Mas a frase de efeito “software is eating the world” ficou mesmo na boca (e nas manchetes) de Marc Andreessen, criador do Netscape, em um ensaio que escreveu para o Wall Street Journal, em 2011.

Software is eating the world
Na verdade, no rigor dos fatos, Andreessen fez originalmente a afirmação de que “software is eating the world” já em 2010, exatamente numa entrevista ao próprio Chris Anderson para a Wired.

Ele disse textualmente: “Acho que o Airbnb está construindo uma tecnologia de software que é equivalente, em termos de complexidade, ao poder e a importância de todo um sistema operacional. Só que aplicado a um setor específico da economia. Então, esta é a ideia básica: software está comendo o mundo. A Internet se espalhou pelo mundo num tamanho e escopo tal, que tornou economicamente viável que se construa sobre ela grandes empresas com domínios individuais (de determinados pedaços de todo esse espaço), onde o grande instrumento de transformação do mundo tem sua base inteiramente na programação de códigos”.

Talvez ele tivesse sido mais preciso se desse ênfase a essa sacada da sua frase final: são os códigos que estão comendo o mundo pelas beiradas. Códigos de aplicativos. É, no fundo, o mesmo raciocínio de Chris Anderson.

Agora, que a propaganda morreu, ah… isso morreu.

Quem disse? Martin Sorrell.

Advertising is dead
O chairman do WPP fez essa afirmação – eu vi e ouvi – em entrevista ao vivo no palco do MIXX de 2012, ao anfitrião do evento e Presidente do IAB/US Randall Rothemberg.

Uma vez mais, o que ele disse é menos importante do que o quis de fato dizer.

É claro que o cabeça do maior grupo de comunicação do mundo não decretou – como as manchetes da mídia que ele enumerou tão bem em sua página no Facebook – a morte do seu próprio negócio.

Sua afirmação foi feita num contexto de conversa em que ele afirmava que a tecnologia estava invadindo de tal forma a indústria da comunicação que a propaganda como a conhecemos estava sendo substituída por outra, com forte traço menos intuitivo e mais tecnológico, de performance, mensuração e resultados.

Afirmou mais: que o negócio da indústria de que é líder não era mais essencialmente de comunicação, mas de gestão de dados. Essa sim uma firmação que deveria provocar uma revolução mundial. Não provocou. Ficamos na superficialidade do impacto da manchete de efeito.

Assim, portanto, Sorrell “matou”, mas não enterrou a publicidade.

Mas que o MIT matou o forecast ah… isso matou!

Forecast is dead
Em artigo que na verdade reflete um pensamento comum cada vez mais disseminado entre estudiosos do mundo, o MIT apenas deu forma (e brilho) à ideia de que fazer projeções num mundo que anda na velocidade em que anda o nosso mundo hoje – e piamente acreditar nelas – é uma prática, no mínimo, temerária.

Obviamente, muitos vão discordar, mas na real, forecasts têm sido ultimamente apenas peças de decoração de budgets e planejamentos estratégicos, que são engolidos, como nos alertou Marc Andreessen, pelas inovações do cotidiano e a total imprevisibilidade da vida corporativa.

O ponto do MIT é o seguinte: “Em mercados turbulentos pode ser difícil para as empresas escolher novos rumos estratégicos. Mas repensando o passado e o presente e re-imaginando o futuro, os gestores podem construir narrativas estratégicas que vão lhe permitir inovar”.

Vale a leitura. Eles dão dicas de como viver o futuro sem planejá-lo.

E vamos agora para a última desta série de serial killers: a McKinsey. Quem diria, gente. Até tu, Mckinsey!

Sabe quem ela matou? Todas as empresas de serviço. Só isso.

Innovation might kill industries
Bom, dei uma forçada de barra. A McKinsey, de fato, nunca falou isso. Mas como todos os demais statements citados até aqui, quis dizer. E isso é o mais importante.

Já na apresentação de seu recente estudo “Service Innovation in a digital world” a consultoria manda o recado: “Um número crescente de empresas enfrenta hoje o fato de que seus negócios (na área de serviços) estão sob ameaça. Os culpados são membros de uma nova onda de empresas iniciantes digitais que capitalizam os avanços da tecnologia, (as alterações) no comportamento dos clientes e a disponibilidade de dados para criar alternativas inovadoras, mais favoráveis aos usuários de serviços que oferecem. A ruptura digital (em cadeia) que teve início no varejo com a Amazon, há duas décadas, está rapidamente chegando a uma indústria perto de você, se é que já não chegou’’.

Chegou sim.Você pode até ter não percebido (ou não querido perceber). Mas que chegou, chegou.

Não me vá morrer por aí, hein?

Ah, e tem o ponto de táxi, que amávamos tanto, e que está morrendo também. Uber vai matar.

Você tem dúvida? Mesmo?

DE PROXXIMA

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